Leituras: Mattelart contra a Internet
Acabei de ler hoje a "História da Sociedade de Informação" do teórico francês da Comunicação Armand Mattelart, editado em 2002 pela Bizâncio. Seguindo a sua tradição, este mais recente livro do Matellart consiste numa metade um
sampling de "chouriços" das suas obras anteriores como "A Invenção da Comunicação", "Comunicação-Mundo" ou "História da Utopia Planetária". Mas, reconheça-se, o homem tem jeito para historiador e é formidável ao colocar os factos num contexto mais vasto.
É pena é que a sua escrita esteja saturada de toques neo-marxistas do mais ortodoxo possível que o levam a considerar qualquer inovação tecnológica como fruto e instrumento do capitalismo e imperialismo norte-americano. Mattelart é ultra-pessimista e raramente confia em qualquer objecto das Tecnologias da Informação e da Comunicação. Para ele, a Internet não é nada de novo: as promessas de "milenarismo utópico" proferidas em seu nome por governantes, empresários, jornalistas e pensadores possuem o mesmo conteúdo das que foram feitas na altura do início do telégrafo, da rádio e da televisão. Na sua opinião, não existem diferenças substanciais entre os média, mesmo que a Rede permita a comunicação de Muitos para Muitos, bidireccional e interactiva.
Por isso, limita-se a falar das iniciativas realizadas pelo governo norte-americano e de outras democracias ocidentais para impôr a "Sociedade da Informação" como se fossem favores prestados às gigantes do
hardware,
software e conteúdos. O que não quer dizer que não seja verdade: é um facto que o mundo ocidental e não só está quase sob o domínio completo do mercado livre neo-liberal. Mas o grande erro dele é que não dá importância às comunidades virtuais, ao movimento
hacker do
software livre, aos média tácticos como a
Indymedia e à simples possibilidade de um zé-ninguém, como eu e vocês, de criarem um blog e trocarem ideias com políticos do
status-quo como o Pacheco Pereira. Por outro lado, em Mattelart, o Estado-nação deve continuar a ser soberano e a orientar as massas incultas, à boa maneira chauvinista francesa.
Para algumas pessoas, é mais cómodo dizer mal, criticar por criticar e ver só o pior do que agir, observar as grandes potencialidades que as novas tecnologias oferecem e, acima de tudo, unir esforços para possibilitar ao máximo a convergência dos saberes e conhecimentos, de uma forma única, descentralizada, sem hierarquias rígidas, aberta e participativa.
Outro factor negativo do livro é que tem uma perspectiva muito tímida em relação aos direitos de autor quando refere que existe o perigo de se passar para uma abordagem mais anglosaxónica da propriedade intelectual "em que o criador cede os seus direitos a um produtor que dispõe deles como muito bem entender" (pág. 128). O que o Mattelart não percebe que os direitos de autor já não existem para compensar os autores desde há muito tempo.
Publicado por macaetano em julho 6, 2003 05:54 PM